quarta-feira, 9 de abril de 2025

Um manifesto

 

Nos últimos meses as árvores tomaram muito a minha atenção: uma busca por diferentes espécies, nativas, pra tentar recriar um bioma acabou me levando a conhecer e aprender muita coisa.

No início desse período era a época mais quente do ano e de presente o agronegócio elegeu o mês do fogo no Brasil e a região foi fortemente afetada, eu me lembro nitidamente de reparar em um início de floração de ipês amarelos, mas que depois de alguns dias de queimadas e de sol coberto por fumaça essa floração foi interrompida, lembro também que o ipê branco, de floração conhecidamente curta, teve três florações, resultado das ondas de calor intensas.

Nesse mesmo período os ipês amarelos começar a florir de verdade colorido minha estrada pro trabalho.

A partir desse momento eu pode perceber o relóginho das árvores girando. Um mes de ipês amarelados e logo que essa floração começa a murchar as flores roxas fascinantes dos jacarandás começam a se espalhar, no seu ritmo. Os ipês ficam pelados, parecendo até árvores mortas mas é somente uma fase do seu ciclo completamente natural e saudável; assim como o ipê amarelo, o jacarandá também sustenta uma floração de um mês, e nesse período começou a chover uma chuva esperada e rala, longe do que os ciclos gostariam, e ainda assim, quando as roxas terminaram de cair no chão começaram a brotar tapetes vermelhos suspensos pelos troncos dos flamboyants e no encalço dessas flores, as folhas dos jacarandás e dos ipês voltaram a brotar vigorosamente, deixando as irreconhecíveis.

pensar nesses ciclos fez com que eu lembrasse por que o tempo é organizado em ciclos de 12 meses, vai ser somente nessa época do próximo ano que os flamboyants vão começar a abrir suas flores vermelhas novamente e ainda que os crimes ambientais e suas consequências estejam provocando alterações no processo, enquanto houverem estações e ciclos climaticos certamente o ciclo se repetirá 

Tudo isso pra dizer que observar esse ciclo me fez pensar que nós, animais humanos, cada vez mais afastados dos ciclos organicos e da nossa identificação enquanto seres vivos, cada vez mais sendo incentivados e forçados a nos comportarmos com máquinas estáveis e imutáveis temos sido cada vez menos pacientes com nossos ciclos, cada vez menos respeitamos nossas fases, não conhecemos nossos sinais.

Como é possível que as folhas caiam, que as flores abram, que os pássaros migrem, que os filhotes nasçam, que a chuva caia e que os alecrins dourados esperem que nada mude em seu ciclo de vida? Desejar ser tão estável a ponto de não ser influenciado por nada é como desejar não estar vivo. Quando vamos poder voltar a estarmos vivos ?

A exemplo dos outros seres vivos eu defendo que devemos buscar compreender nossos ciclos e fases e descobrir a beleza deles como eu descobri a do das árvores.

Realmente nada muda na virada do dia 31 de dezembro para o dia 1° de janeiro, mas a compreensão de que um novo ano é um novo ciclo não é algo místico, é científico, é biológico e é poético.

Lutemos sim contra o fogo, contra o agro, contra a mercantilização da saúde, da ciência, contra a mecanização e exploração da vida, e lutemos conhecendo nossas armas, nossos recursos nossas potências e a natureza mutável de todas essas coisas.




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