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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Qual é o lugar da mulher no Rap?

Esse texto é parte de um de blog produzido como avaliação de uma disciplina de núcleo livre que eu fiz no semestre passado, o blog com as postagens das outras meninas do grupo ta disponível AQUI
Foto: Rimas e Melodias. fonte: https://www.youtube.com/watch?v=jBTUZC0j1ug


Segundo Costa e Menezes(2009, apud Menezes & Rodrigues, 2014) o Movimento hiphop surgiu entre as décadas de 60 e 70 nos EUA, composto por jovens negros e latinos que se envolvem com rap, break, DJ, grafitti e conhecimento político, esse movimento se constituiu como alternativa para os jovens da periferia caracterizando-se como manifestação político-cultural. Para Weller (2011, apud Menezes & Rodrigues, 2014) o movimento se tornou uma forma de contestação das desigualdades sociais principalmente através do rap.

O rap é conhecido no brasil como música de protesto e costuma levantar questões referentes a raça e desigualdade social; As questões de gênero entretanto, ainda tateiam o campo do rap, o estilo musical que até pouco tempo era exclusivamente masculino, parece continuar a reproduzir as opressões e desigualdades de gênero presentes em nossa sociedade (Menezes & Rodrigues, 2014)


O primeiro ingresso das mulheres no rap não se trata de uma abertura real, elas são convidadas a entoar refrões melódicos em meio as rimas de protesto dos ‘manos’, o que reproduz a ideia de que às mulheres cabe o que é delicado e agradável, isso porque não é aberto espaço (dominado por homens) para que elas falem da opressão que é sofrer violência de raça, classe e gênero. Enquanto não houve uma democratização midiática com a popularização da internet, o preço que uma mulher pagava por querer entrar no mundo do rap era alto demais

"Quando as jovens conseguem ingressar no universo Hip Hop, a dicotomia público/privado no interior do movimento exige enfrentamentos cotidianos, pois as ordens morais de sexo/ gênero presentificam-se das mais variadas formas: desigualdade de condições para participação em eventos e na ocupação de cargos de liderança, hegemonia dos códigos de honra masculinos exercendo controle sobre a entrada e a saída das jovens, bem como o controle sobre seus corpos, desvalorização da produção cultural delas e, por vezes, estabelecimento de moedas de troca (favores sexuais) para a transmissão das técnicas dos elementos, entre outros desafios" (Menezes & Souza, 2011, apud Menezes & Rodrigues, 2014).

Menezes e Rodrigues(2014) realizaram algumas entrevistas com mulheres que participavam de uma cena de rap predominantemente masculina, e puderam perceber em seus discursos que a inserção no movimento, apesar de possibilitar a construção de um olhar crítico sobre a situação de desigualdade que viviam, manteve a naturalização das desigualdades de gênero, inclusive na reprodução de discursos machistas para auto afirmação ou avaliação do trabalho de outra mulheres. 

A predominância masculina na cena nacional do rap parece impedir que as mulheres apareçam e talvez por isso alguns nomes do rap feminino, através do youtube, começaram a se unir para criar uma cena representativa, unicamente feminina e que protesta contra todas as questões que as afetam; nessas gravações abordam assuntos como a própria presença das mulheres no rap, atitudes machistas dos homens do rap, o racismo e as questões da mulher negra, gordofobia, padrão de beleza, empoderamento, sexualidade feminina, estigmas e estereótipos de gênero, etc.

Para Silva (1999, apud Menezes & Rodrigues, 2014), o  HipHop é um movimento construído por práticas juvenis inseridas no espaço da rua e não se apresenta apenas como proposta estética, mas principalmente enquanto arte engajada. O rap frequentemente carrega uma imagem de linguagem grosseira, por ser uma expressão de enfrentamento e denúncia, frequentemente não é uma arte feita para agradar, então nele é muito comum a presença de palavrões e assuntos que a maioria das pessoas prefere não tocar. E se não é esperado dos homens esse tipo de expressão, quando uma mulher resolve usar a mesma linguagem (e elas usam) causa um estranhamento, já que o que a sociedade impõe e espera é que uma mulher tenha um comportamento ainda mais recatado do que qualquer homem culto.

Um desses grupos de mulheres se intitula Rimas e Melodias e reúne as cantoras Alt Niss e Tatiana Bispo, as cantoras e rappers Drik Barbosa e Tássia Reis, as rappers Karol Souza e Stefanie e a DJ Mayra Maldjian, segundo o grupo, “juntas, cantoras, rappers e djs somam forças no levante das mulheres no hip hop que, apesar dos avanços, ainda é um movimento dominado por homens”. Um das principais produções do grupo se chama Cypher:

"Tô driblando no jogo, cada rima é um golaço e
Como a marta domina os campo, os palco nós domina
Cês se perguntam por que agora as mina rima sim
Esse som é confirmação (que as mina rima sim)
Por muito tempo a nossa voz (não foi ouvida assim)
Segura o peso e as mensagens, o choro é livre e fim!"

Nesse trecho a rapper faz referência a jogadora de futebol Marta como exemplo de mulher que se destaca em ambiente usualmente dominado por homens, aponta o fato de que por ser mulher sua voz não era ouvida no espaço do rap mas afirma que essa própria musica é prova de que isso esta mudando

"As mina rima, risca, dança, grafita, não se limita e
Quem machuca e chora se irrita
Escreve, produz, filma, edita
Ainda bate de frente com quem desacredita
Vai vendo a fita que a gente enfrenta todo dia
(...)
Eu deixo o meu legado que se foda o patriarcado
E todos que desejam que eu tivesse numa pia
Nos engula nas academias, universidades
Ocupando espaços pelas cidades afora
Já tá na hora, queremos tudo e agora"
Nesse trecho a rapper aponta que todos o espaços que foram negados as mulheres serão por elas ocupados, deixando claro que a intenção não é agradar ninguém com isso, pelo contrario, é sim romper os estigmas sociais cristalizados também na cultura Hiphop

A mulheres estão no youtube e estão nos palcos dos festivais, elas estão nos estúdios e nas produções musicais, estão escrevendo, cantando, gavando, editado, promovendo, e como foi descrito, esse espaço de maneira alguma foi cedido, ele foi e vem sendo conquistado através da união e luta entre mulheres que acreditam no potencial umas das outras. Então pra responder a pergunta, o lugar da mulher no rap, como em qualquer outra área é onde ela quiser e acreditar que pertence.. 


Referências:

Matias-Rodrigues, M. N. & de Araújo-Menezes, J. (2014). Jovens mulheres: reflexões sobre juventude e gênero a partir do Movimento Hip Hop Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud, 12 (2), pp. 703-715.